Ansiedade
Ansiedade: uma compreensão gestáltica
Informações sobre a ansiedade como resposta de antecipação, os mecanismos que podem mantê-la e a contribuição da Gestalt-terapia para compreendê-la.
A ansiedade é uma resposta de antecipação que prepara o organismo para lidar com situações importantes, incertas ou potencialmente ameaçadoras. Pode acelerar os batimentos cardíacos, aumentar a tensão muscular, concentrar a atenção e favorecer uma resposta rápida. Torna-se clinicamente relevante quando sua intensidade ou persistência é desproporcional e começa a interferir no sono, nos vínculos, nos estudos ou no trabalho.
A ansiedade cumpre uma função protetora. Quando permanece ativa sem um perigo atual, porém, pode organizar o comportamento em torno de ameaças antecipadas.
Antecipação e incerteza
Diante da falta de informação, a mente tenta antecipar o que pode acontecer. Essa capacidade pode facilitar a preparação, mas também pode produzir uma sequência de cenários negativos quando a incerteza é percebida como intolerável. Um estudo longitudinal de 2024 encontrou que maior intolerância à incerteza predizia mais ansiedade e estava relacionada a ruminação, evitação e busca constante de segurança.1
Imaginar o pior oferece uma sensação temporária de preparação, mas não garante controle. Revisar, perguntar repetidamente ou evitar aquilo que preocupa pode aliviar por alguns minutos e, ao mesmo tempo, ensinar ao sistema de alarme que a situação era perigosa. Assim se forma um ciclo que mantém a ansiedade.
Compreensão gestáltica da ansiedade
A Gestalt-terapia investiga não apenas por que a ansiedade aparece, mas como ela se organiza na experiência presente. A avaliação considera as sensações corporais, os pensamentos predominantes, as situações que ativam a resposta e as necessidades, limites ou decisões que podem permanecer em segundo plano. Esse processo se relaciona ao dar-se conta: reconhecer de forma integrada aquilo que se sente, se pensa, se faz e se percebe do ambiente.
Nessa perspectiva, o sintoma ganha sentido dentro de uma história e de um contexto. Uma pessoa pode ter aprendido a prever tudo para evitar críticas; outra se mantém ocupada para não sentir vulnerabilidade; outra associa descanso a irresponsabilidade. Compreender a função dessas respostas não significa justificar o sofrimento, mas encontrar um ponto de partida para a mudança.
A atenção ao presente
A ansiedade costuma puxar a atenção para um futuro possível. Voltar ao presente não significa repetir que “vai dar tudo certo”. Significa verificar o que acontece agora e separar três aspectos: o perigo atual, o problema que exige uma ação e o cenário que a mente está ensaiando. Essa diferenciação devolve margem de escolha.
Na sessão, podem ser explorados a respiração, a tensão, a forma de pedir ajuda ou o momento em que a preocupação se torna circular. O terapeuta acompanha com perguntas e observações, sem impor uma explicação. A relação terapêutica também oferece um espaço para experimentar outras maneiras de sustentar a incerteza, expressar uma necessidade ou colocar um limite.
Recursos de regulação no cotidiano
- Nomear: “estou antecipando” é diferente de “isso vai acontecer”.
- Localizar: observar respiração, tensão e apoio corporal sem exigir que desapareçam.
- Diferenciar ação e ruminação: se existe um passo concreto, defini-lo; se não existe, reconhecer que pensar mais não traz informação nova.
- Reduzir a evitação gradualmente: aproximar-se, com apoio, do que importa.
- Cuidar do sono, movimento e estimulantes: não resolvem tudo, mas influenciam a ativação fisiológica.
Uma revisão com metanálise de 2024 indica que a psicoterapia pode reduzir a intolerância à incerteza, especialmente quando ela é trabalhada de modo explícito.2 A pesquisa específica sobre Gestalt-terapia é mais limitada do que a de outras abordagens; uma revisão sistemática encontrou resultados promissores, mas pediu estudos maiores e mais rigorosos.3
Indicadores para buscar avaliação profissional
Recomenda-se consultar quando a ansiedade é persistente, provoca crises frequentes, interfere no sono ou nas atividades, leva à evitação de situações importantes ou vem acompanhada de uso problemático de substâncias. Uma avaliação ajuda a diferenciar uma reação esperada diante de um momento difícil, um transtorno de ansiedade ou outra condição que exija cuidado específico. Essa diferenciação orienta o tipo de apoio mais adequado.
Fontes e leituras
Seleção de estudos e textos que fundamentam este artigo. Os resultados são apresentados com seus limites e não substituem avaliação clínica.
- Sahib, A. et al. (2024). Emotion regulation mediates the relation between intolerance of uncertainty and anxiety and depression: A longitudinal study. Journal of Affective Disorders.
- Näsling, J. et al. (2024). Effect of psychotherapy on intolerance of uncertainty: a systematic review and meta-analysis.
- Raffagnino, R. (2019). Gestalt Therapy Effectiveness: A Systematic Review of Empirical Evidence.
- Szuhany, K. L. e Simon, N. M. (2022). Anxiety Disorders: A Review. JAMA.

